História da Igreja Evangélica Congregacional do Brasil
1. As raízes do congregacionalismo
A história da Igreja Evangélica Congregacional do Brasil (IECB) está ligada a um movimento cristão que remonta aos primórdios do protestantismo. O congregacionalismo tem suas bases nos ensinos de John Wyclif (1330–1384), teólogo inglês que traduziu a Bíblia e defendeu que somente Cristo é o cabeça da Igreja. Seus seguidores — conhecidos como lolardos — inspiraram o movimento puritano que, séculos depois, daria origem às igrejas congregacionais.
Entre os séculos XVI e XVII, cristãos perseguidos na Inglaterra buscaram liberdade religiosa, reunindo-se em pequenos grupos autônomos que tomavam decisões de forma democrática e independente, sob a autoridade exclusiva de Cristo e da Bíblia. Esse ideal de comunidade livre se fortaleceu com Robert Browne e com os Pais Peregrinos, que em 1620 cruzaram o Atlântico no navio Mayflower, estabelecendo em Plymouth (EUA) a primeira comunidade congregacional nas Américas.
Nos Estados Unidos, o congregacionalismo influenciou profundamente a educação e a missão cristã. Universidades como Harvard, Yale e Dartmouth surgiram sob influência congregacional, e missionários foram enviados para evangelizar povos nativos. Ao longo dos séculos, o movimento manteve seu caráter bíblico, missionário e autônomo, baseado na comunhão dos crentes e na autoridade das Escrituras.
2. Da Europa e Estados Unidos à América do Sul
O movimento pietista alemão — representado por nomes como Philipp Jakob Spener e August Hermann Francke — enfatizou uma fé viva e prática, centrada em devoção pessoal e vida piedosa. Perseguidos em vários momentos, muitos pietistas emigraram, formando colônias evangélicas em regiões como o Volga (Rússia) e, posteriormente, migrando para as Américas devido a dificuldades políticas e econômicas.
Esses imigrantes de origem germano-russa trouxeram consigo um vigor espiritual marcado pela oração, piedade prática e desejo por autonomia no culto e na vida comunitária. Alguns se estabeleceram nos Estados Unidos e Canadá; outros emigraram para países da América do Sul — entre eles Argentina, Paraguai, Chile e Brasil — onde buscavam viver o evangelho de maneira simples e comunitária.
3. O nascimento do congregacionalismo na Argentina
O ponto de partida da história que deu origem à IECB encontra-se na Argentina, entre 1920 e 1922, quando famílias de origem russo-alemã se fixaram na região de Aldea San Antônio, província de Entre Ríos. Descontentes com o atendimento religioso recebido, essas famílias passaram a reunir-se sob a liderança do professor Jorge Geier, formando a Congregação Evangélica Livre de San Antônio.
Em 4 de março de 1923, foi formalizada a Sociedade Religiosa Evangélica Alemã e, ainda naquele ano, iniciou-se a construção da primeira Casa de Oração. Ao saberem do movimento congregacional nos Estados Unidos, os irmãos solicitaram missionários; em 1924 chegou o Reverendo Juan Helzer, que organizou as comunidades locais segundo as normas congregacionais e ordenou Jorge Geier como primeiro pastor da Igreja Evangélica Congregacional da Argentina (IECA).
Em 1939 foi fundado, em Concórdia (Entre Ríos), o Seminário para Pregadores — instituição que formou pastores argentinos e brasileiros até 1973 e mais tarde passou a funcionar em Urdinarrain. Esse seminário foi fundamental para a consolidação do trabalho congregacional no Cone Sul.
4. A fundação da IECB no Brasil
No sul do Brasil havia, desde o início do século XX, várias comunidades independentes de origem alemã, muitas delas dissidentes da Igreja Luterana e com forte cunho pietista. Entre 1935 e 1942, várias dessas comunidades se filiaram à Igreja Evangélica Congregacional da Argentina, intermediadas por líderes locais, especialmente o pastor Karl Spittler.
Como resultado desse processo, em 11 de janeiro de 1942, na Linha Morengaba, interior de Panambi (RS), foi fundada oficialmente a Igreja Evangélica Congregacional do Brasil (IECB). As igrejas fundadoras incluíam comunidades de Morengaba (Panambi), Linha 27 Norte (Ajuricaba/Ijuí), Feijão Miúdo (Três Passos), Guarani (Cerro Largo/Santa Rosa), Ati-Açu (Sarandi), Marupiara (Vila Paraíso/Cachoeira do Sul) e Nova Boêmia (Agudo).
Os primeiros pastores que lideraram esse nascimento eram, em grande parte, professores leigos ordenados ao ministério: nomes como Karl Spittler, Otto Geier, Guilherme Strauss, Henrique Hirzel, Frederico Stahlschuss, Albino Wagner, Ervino Reich e Germano Pufal figuram entre os pioneiros.
Com a rápida expansão, o Instituto de Teologia da Argentina enviou, em 1948, pastores formados para dar continuidade ao trabalho no Brasil, entre eles Jan Serfas e Gustavo Altmann. Em 1949, a Igreja mãe nos Estados Unidos enviou o pastor Richard Knerr como superintendente para supervisionar o trabalho no país — cargo ocupado até 1958 — e em 1959 foi substituído por Valerius Schulz.
5. Educação teológica e consolidação
Visando formar obreiros nacionais, em 1961 foi fundado em Ijuí (RS) o Instituto Bíblico Evangélico Congregacional. Em 1970, esse instituto passou a oferecer o Curso Teológico e transformou-se em Seminário — o IBISEC (Instituto Bíblico e Seminário Evangélico Congregacional). Em 1973 formaram-se os primeiros pastores brasileiros pelo seminário: Lauro Schumann, Ivo Lídio Köhn, Zeno Wehrmann e Edelberto Racho.
O investimento em formação teológica consolidou a identidade doutrinária e missionária da denominação, permitindo que a IECB produzisse líderes locais capacitados para o pastoreio e a missão em diferentes regiões do país.
6. Expansão pelo Brasil e atuação no Paraguai
A partir de suas bases no Rio Grande do Sul, a IECB ampliou sua atuação para outros estados: Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas. A presença congregacional espalhou-se por meio de paróquias, comunidades e pontos de pregação, acompanhada por atuação em educação religiosa, corais, juventude e programas comunitários.
No Paraguai, o movimento congregacional foi impulsionado pela migração de famílias brasileiras entre as décadas de 1960 e 1990. O trabalho cresceu e, em 1974, foi registrada a primeira ata formal de organização em território paraguaio; mais tarde a Igreja organizou-se como Iglesia Evangélica Congregacional del Paraguay (IECP), com estatutos próprios. No ano 2000, a IECP contava com diversas comunidades, templos e casas pastorais, sendo atendida por pastores formados no IBISEC.
7. Crescimento e estatísticas
Ao longo das décadas, as estatísticas oficiais e históricos da denominação documentam um crescimento significativo:
Em 1949 havia cerca de 7 paróquias, 38 comunidades e aproximadamente 8.882 pessoas ligadas ao trabalho congregacional no Brasil. Em 1959, os números cresceram para 15 paróquias, 107 comunidades e aproximadamente 18.004 pessoas. Em 2000 registravam-se 38 paróquias, 221 comunidades e cerca de 28.001 membros. Dados mais recentes do levantamento de 2022 apontam 50 paróquias ou campos missionários, 228 comunidades, 210 templos concluídos (mais templos em construção), 7.192 famílias e um total aproximado de 23.765 pessoas atendidas pelos ministérios da IECB.
Além das congregações, a igreja estruturou atividades permanentes como escolas de culto infantil, ligas juvenis, grupos de senhoras (OASC), corais, programas radiofônicos e publicações, contribuindo para a vida espiritual e comunitária de suas igrejas.
8. Liderança e continuidade
Desde sua fundação, a IECB teve lideranças que marcaram sua história e consolidaram sua identidade congregacional. Entre os presidentes da denominação destacam-se:
- Prof. Ernesto Lammers (1942–1954)
- Pr. Erich Edvin Wißke (1954–1967)
- Pr. Alberto Keiser (1967–1968)
- Pr. Hartmut Hachtmann (1968–1992)
- Pr. Alfredo G. Achterberg (1992–1997)
- Pr. Ivo Lídio Köhn (1997–2003 e 2009–2012)
- Pr. Dorival L. Seidel (2003–2009)
- Pr. Mauro Mohnschmidt (2012–2017)
- Pr. Rogélio Renato Renner (2018–2023)
- Pr. Paulo Miguel Aguilar (2024–presente)
Sob essas lideranças, a IECB manteve ênfase na formação teológica, no trabalho missionário, na organização e no suporte às comunidades locais, preservando a continuidade e adaptando-se aos desafios regionais e históricos.
9. Identidade e missão
A IECB nasceu de um movimento que buscava simplicidade, piedade e fidelidade às Escrituras. Sua identidade congregacional é caracterizada pela autonomia das igrejas locais, liberdade de consciência, ênfase no sacerdócio de todos os crentes e a convicção de que Cristo é o único cabeça da Igreja.
Ao longo de mais de oito décadas, a denominação demonstrou perseverança e fidelidade, enfrentando dificuldades espirituais e materiais, distâncias geográficas e limitações logísticas. Esses desafios foram superados com cooperação, formação de líderes e uma forte vocação missionária.
A história da Igreja Evangélica Congregacional do Brasil é uma trajetória de fé, dedicação e coragem. Iniciada por imigrantes piedosos na Argentina e consolidada no Brasil em 1942, a IECB expandiu-se e adaptou-se mantendo como fundamento a Palavra de Deus e a centralidade de Cristo. Hoje continua atuante em muitos estados brasileiros e no Paraguai, reafirmando o compromisso de pregar o Evangelho com integridade, servir às comunidades e formar líderes comprometidos com a missão da igreja.